Resumo da Palestra TV WEB Geração Nem Nem.
A palestra de 2018 da psicanalista Aline Reck Padilha Abrantes teve por objetivo explicar, do ponto de vista da subjetividade, não da sociologia, da economia, nem do mercado de trabalho, o fenômeno contemporâneo de 30% do(a)s jovens com idades entre 18 e 25 anos estarem totalmente desocupados, sem emprego e sem estudar, justo no momento em que deveriam estar ingressando na Universidade ou no mercado de trabalho.
As informações trazidas são muito relevantes para qualquer profissional, pois os jovens da Geração Nem Nem alguma hora chegam/chegarão ao mercado de trabalho, e se faz necessário entender a subjetividade deles para evitar conflitos geracionais que poderiam minar os objetivos das empresas.
As informações são especialmente relevantes para os jovens da faixa etária correspondente à Geração Nem Nem, para fins de instrospecção e autoconhecimento. Afinal, uma pessoa ignorante até sobre si mesma necessariamente resultará num profissional ignorante. Apresento a seguir o que aprendi na palestra:
A Geração Nem Nem é definida como uma geração que sabe o que não quer, mas não sabe o que quer. E que não há culpados por as coisas terem se saído assim; ao invés disso, há responsáveis, cada um por sua parcela de causa: os/as jovens, os pais, e o meio social.
O que leva um(a) jovem a não estudar nem trabalhar?
Há várias hipóteses do que pode ter levado a juventude a essa situação:
- os/as jovens podem estar apresentando recusa a aceitar os limites que a sociedade impõe a suas pulsões para poderem se relacionar com os outros: não é viável, numa sociedade, fazer tudo o que quiser, pois há que se cumprir papeis sociais, hierarquia, horários, rotina, disciplina;
- os/as jovens podem estar apresentando alguma inibição por causa de problemas como a depressão;
- os/as jovens podem até querer chegar à universidade, mas estarem se impedindo de alcançar o sucesso por acharem que não são capazes de conseguir, por não se identificar com o grupo dos “CDF” ou dos “bem-sucedidos”;
- os/as jovens podem estar propositalmente fazendo o oposto do que são cobrados a fazer, como forma de se autoafirmar.
Assim sendo, não há como generalizar um só perfil para toda uma geração, pois cada pessoa é um caso específico. O rótulo apaga e desconsidera a singularidade, e por isso não se justifica, levando em conta que há tantas causas, e também fatores diferentes, tais como classes econômicas, etnias, culturas. A rotulação é um mecanismo da humanidade para apaziguar o desconforto que surge de encarar algo desconhecido, mas nesse caso não traz nenhuma solução e não serve para nada.
Amadurecimento
Existe também uma parecela desse(a)s jovens que nem sequer tentar procurar emprego ou sair da situação em que se encontram. Ficam apático(a)s, inertes, paralisado(a)s, se isolam, sentem tédio prolongado e podem até manifestar depressão. O problema dele(a)s pode ser não que lhes falte algo, mas justamente a falta da falta, a impossibilidade de desejar alguma coisa. Quando os pais apresentam narcisismo e querem resgatar no(a)s filho(a)s aquilo que eles não tiveram, isso se torna sufocante, pois quando se tem tudo dado na mão não se abre espaço para o desejo que mobiliza as pessoas a buscar a lutar pelas coisas: é o fim da linha angustiante.
Os pais precisam ensinar seus/suas filho(a)s a viver: mostrar que errar faz parte da Liberdade de Escolher, e que as pessoas falham e se frustram no processo, mas que mesmo assim a vida adulta vale a pena. É comum os pais idealizarem a juventude como se fosse a única fase boa da vida, e incentivarem os/as filho(a)s a a aproveitarem o máximo pois depois a fase acaba, e isso estimula diretamente os/as filho(a)s a prolongarem a juventude além do devido. Se a juventude é a única fase boa, quem vai querer sair dela e entrar na vida adulta, que soa como algo horrível? É semelhante a se estimular as pessoas a aproveitarem a fase de solteiro… Quem vai querer se casar assim, se o casamento soa como um inferno?
O problema é que os pais muitas vezes não sabem orientar os/as filho(a)s pois têm recalque: já foram jovens também, já sonharam muito, já fizeram muita besteira, tiveram seus conflitos. Terem que se lembrar de sua juventude, ação necessária para orientar seus/suas filho(a)s, traz consigo a necessidade de prestar contas consigo mesmo(a), o que é incômodo: porquê o(a) adulto(a) de hoje não realizou, não conseguiu realizar aquileles sonhos? Resulta que chegam os pais na clínica com seus/suas filho(a)s como se não reconhecessem nele(a)s nada do que viveram, como se tivessem se esquecido de que já foram jovens também.